Você que acompanha meus textos na revista pode considerar saudosismo de minha parte sempre levantar analogias sobre a comunidade do arguile atual e o que tínhamos há alguns anos, mas insisto nesse assunto, pois o considero de extrema importância. Sinto que como comerciante e adepto há mais de 15 anos, o público consumidor, seja de produtos ou informação, influencia muito o rumo que as coisas tomam, por isso estou sempre atento e busco alertar. Não quero ser um “cagador de regras”, muito menos ditar o comportamento ou escolher as pessoas que devem e como devem usar o arguile, porém o bom senso deve existir e a falta dele aliado aos modismos contemporâneos dos jovens dinâmicos, estão afugentando o público sério que tem muito a contribuir à cultura.

Hoje nas redes sociais vence quem “lacra” mais, no bom e chavoso Aurélio, lacrar é se dar bem em uma situação que na maioria das vezes, implica em tentar humilhar uma pessoa ou fazer piadas para alcançar esse objetivo. Junte isso ao politicamente correto e pronto, temos uma estreita viela em que raramente passa o bom senso e a espontaneidade.

Basicamente, as regras que não gosto de impor estão inerentes à comunidade, ou seja, para fumar o arguile hoje você necessariamente deve expor, exibir pretensiosamente o máximo possível, como em um episódio do viral outfit. Criar uma atmosfera perfeita para o clique e subir em todos os grupos, páginas e perfis possíveis.

E o que fazer quando não conseguimos uma boa foto? Você pode lacrar em postagens de texto ou no tão oportuno comentário. Ahhhh, os comentários! Eles são uma verdadeira disputa de piadas “engraçadas”, gifs geniais e insultos capazes de “desmoralizar” qualquer um.  Ser engraçadão doa a quem doer é o tipo de infantilidade que impossibilita qualquer discussão séria como as que tínhamos na época do extinto fórum Blog do Arguile.

Essa bactéria que afeta o intelecto da maioria não é exclusividade das pessoas que fumam arguile, isso existe em toda esfera social brasileira e exerce um poder sorrateiro que repele pessoas sérias que gostariam de contribuir de fato. Hoje, com certeza se ainda vivo, nosso saudoso Ernesto seria criticado e alvo de piadas ou críticas e os comentários de seus vídeos virariam uma verdadeira praça de guerra entre os “haters” versus “lacradores”. Pensem os vídeos do Welton “Spider” que hoje estariam fora das grandes salas e ilhas de edições, parecia um bate papo full time, pensem sobre as reviews no Blog do Tio Bob, o personagem manguinha rasgando seu inglês de “Massachusetts”.

As atitudes que tenho observado em várias vertentes do arguile geram consequências negativas, que fazem com que todo avanço que observávamos pararem, o desinteresse aumenta a ponto de sobrar apenas negócio, comércio. Toda a essência está se esvaindo, quem gostaria de revolucionar hoje já se vê como minoria, coagida ou desinteressada em compartilhar benesses e optando pelo anonimato.

Ser underground é mais prazeroso, o simples ato de fumar arguile sem se preocupar com julgamentos de qualquer patrulha.

Os valores se inverteram e no âmago da cultura, fumar para se divertir e esquecer os problemas tem se tornado cada vez mais custoso.

Por: Sidney Gritti