O arguile é conhecido por diferentes nomes como cachimbo d’água, water pipe, argileh, goza, hookah, shisha, etc. Existem sugestões de que o arguile teve sua origem na Índia e que tem sido utilizado extensivamente por mais de 400 anos. Atualmente, seu uso é comum na Península Arábica, Turquia, Índia, Bangladesh e Paquistão. Porém, nos últimos anos, tem-se observado um verdadeiro renascimento de seu uso em países ocidentais. Acredita-se que atualmente no mundo, mais de 100 milhões de pessoas usam arguile diariamente, sendo inclusive mais prevalente que o uso de cigarros em algumas partes do mundo. O crescimento do público narguileiro aqui no Brasil é notório, principalmente entre os jovens.

Com isso, muitas questões de saúde são levantadas e às vezes afirmadas sem veracidade dos fatos.  De um lado temos jovens inocentes alegando que “arguile não faz mal, é uma fumaça saborosa e filtrada na água”. Do outro temos a grande mídia (TV, jornais impressos e digitais e outros meios de comunicação em massa), alegando que uma sessão de arguile de 60 minutos equivale a 100 cigarros. E agora? Qual a verdade dos fatos? Para responder a esta pergunta, precisamos entender um pouco mais sobre os males de consumir qualquer tipo de tabaco.

O corpo humano “foi projetado” para inalar o ar atmosférico, composto principalmente por Nitrogênio (78.084%), Oxigênio (20.946%) e Argônio (0.9340%). Temos a presença de gases nobres também, além do Monóxido de Carbono e Dióxido de Carbono. Quando o oxigênio é inspirado, ele é levado até todas as células do organismo e reage com a glicose (C6H12O6), produzindo água (H2O), gás carbônico (CO2) e a energia necessária à realização de todas as atividades do corpo. Quando consumimos qualquer tipo de tabaco, estamos alterando totalmente a proporção dos gases inalados que serão absorvidos pela corrente sanguínea. Desta forma, o corpo recebe menos oxigênio do que precisa e recebe mais toxinas do que deveria. Isso interfere diretamente na respiração celular, podendo ocasionar uma série de efeitos colaterais. Sendo assim, fumar arguile é prejudicial à saúde, e isso é um fato indiscutível. Algumas pessoas talvez queiram relutar e argumentar que “arguile não se traga, então não chega a fumaça no pulmão”. Outro equívoco.

O ato de “tragar” fumaça está diretamente ligado à forma que se fuma um cigarro, pela perspectiva de um fumante. Em se tratando do cigarro, primeiro a fumaça é puxada para a boca e depois inalada com uma sequência de ar frio. Dessa forma a fumaça da boca é tragada para o pulmão. No arguile já é diferente: o fluxo de ar e fumaça são mais elevados, e o cachimbo d’água é fumado com uma inalação direta, como se fosse uma respiração pela boca. Isso significa que, de formas diferentes, tanto o cigarro quanto o arguile são tragados e a fumaça entra em contato direto com o pulmão.

Quer dizer então que a mídia sempre esteve certa e que uma hora de arguile realmente equivale a 100 cigarros? Em partes, de acordo com uma Nota Consultiva (Advisory Note)¹ emitida pela Organização Mundial da Saúde, fazer uma típica sessão de arguile pode equivaler entre 100 a 200 vezes a quantidade de fumaça de um único cigarro, se tratando do volume de fumaça, conforme citação: “3. A typical 1-hour long waterpipe smoking session involves inhaling 100-200 times the volume of smoke inhaled with a single cigarrete (6).”

Note que estamos falando de volume de fumaça e não dos componentes encontrados nela. Esta nota consultiva foi publicada em 2005, tendo sua segunda versão² disponível em 2015 com informações adicionais baseadas nos estudos realizados ao longo deste intervalo.

Mesmo na nota de 2015 a OMS ainda afirma que os atuais estudos sobre o arguile e seus malefícios são escassos, mas já servem de alerta para o consumo devido ao alto teor de monóxido de carbono emitido pela combustão dos carvões durante a sessão, além da presença de alcatrão e nicotina, que estão presentes no tabaco aromatizado de arguile.

Segundo uma reportagem³ do The Guardian (Jornal britânico), estudos4 realizados na Royal University of Saudi Arabia comprovaram a presença de 142 substâncias tóxicas ao longo de uma sessão, sendo 30x menor em quantidade em relação ao cigarro. De acordo com o Dr. Kamal Chaouachi, professor na Universidade Paris IX e pesquisador a respeito dos males causados pelo arguile há mais de 15 anos, comparar arguile com cigarro é como comparar uma laranja com uma maçã. Assim como as frutas, estamos falando de 2 tipos de tabaco com propriedades e formas de consumo totalmente distintas.

Sendo assim, podemos afirmar alguns fatos:

1. Fumar arguile é prejudicial à saúde e deve possuir campanhas informativas para alertar os males causados pelo tabagismo, além de atender à mesma legislação aplicada aos demais tipos de tabacos comercializados.

2. Essas campanhas devem ser realizadas com base em estudos sérios e aprovados pela OMS, cuja organização afirma ainda não ter embasamento científico suficiente para alertar os males caudados. Logo, existe a dificuldade de se criar uma campanha de alerta eficaz e verdadeira.

3. Alguns estudos detalhados e mais avançados comprovaram que o arguile é, na verdade, 30x menos tóxico que o cigarro.

4. A grande mídia não tem a mínima ideia do que está falando, pois não há nenhum estudo conclusivo nem embasamento científico que compactue com as notícias divulgadas a respeito dos males causados pelo arguile.

Referências bibliográficas:

¹ http://www.who.int/tobacco/global_interaction/tobreg/Waterpipe%20recommendation_Final.pdf

² http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/161991/9789241508469-por.pdf;jsessionid=CA2EC814F4F1A6B754E1658BD5EC70A7?sequence=5

³ https://www.theguardian.com/society/2011/aug/22/shisha-smoking-how-bad-is-it

4 https://www.theguardian.com/society/2011/aug/22/shisha-smoking-how-bad-is-it

Por: Eduardo Macário