Ele nasceu no Líbano em uma pequena cidade com pouco mais de 3000 habitantes. Aos 22 anos, determinado a mudar sua vida e a de sua família, saiu do Líbano e enfrentou vários desafios e lutas. Paraguai, Brasil e Venezuela fizeram parte dos países onde ele viu e vê oportunidades. Hoje aos 42 anos, casado e pai de três filhos compartilha com a HBE sua história de determinação e luta, este é Hicham!

Porque você saiu do Líbano?

Em 1990 acabei os estudos e queria cursar Medicina ou Engenharia, e estes cursos só existiam na capital Beirute que ficava a 80 km de onde morava. O meu pai era professor, e o pós-guerra civil era muito difícil financeiramente para nós. Após quase dois anos sem estudar, trabalhando apenas para ganhar o sustento, um amigo que foi para o Paraguai me chamou também. Eu apenas respondi: “Vou pra onde? Paraguai? O que é? Onde fica Paraguai?”. Para mim era um país totalmente desconhecido, e não tinha consulado nem embaixada no Líbano, então ele me instruiu a ir para a Argentina e daí começou a jornada.

Como foi para seus pais?

Cheguei para meu pai e disse: “Eu quero viajar, vou para o Paraguai! Lá é bom para trabalhar e estudar” meu pai um pouco apreensivo falou: “Filho não tenho condições, como vai conseguir visto e passagem?”. A passagem somente de ida era US$ 2.700,00, não tínhamos essa quantia. Eu insisti, queria viajar! Então meu pai consentiu e me instruiu a ver primeiro o visto e depois nos preocuparíamos com a passagem.

Após conseguir o visto argentino, cheguei em casa eufórico e mostrei ao meu pai. Foi aquela comemoração! Mas e agora, como faremos com a passagem?

Meu pai fez um empréstimo com um amigo, US$ 2.700,00 de passagem e mais US$200,00. Peguei o avião pela primeira vez com 22 anos. Tinha apenas a passagem de ida garantida, era tudo ou nada!

E a despedida da família?

Somos sete em casa: quatro homens e três mulheres, e ninguém tinha saído de casa ainda. A despedida foi difícil, muito difícil. Foram todos ao aeroporto, meus pais choravam, afinal era um jovem de 22 anos que tava indo pra sei lá onde. Não era para um país vizinho, não era um país árabe, eles tinham medo. Mas eu estava feliz, era o que eu queria!

O voo até a Argentina foi bem difícil, o avião fez muitas escalas: Suíça, Dinamarca, São Paulo, Buenos Aires e finalmente Porto Iguaçu. Era muito tempo dentro do aeroporto sem poder sair, pois estava em trânsito pelo país, dormia nas cadeiras ou no chão. Foi uma viagem cansativa, longa, mas tive que encarar.

Quanto tempo ficou na Argentina?

Fiquei horas! Um amigo foi me buscar na Argentina e me levou ao Paraguai, pois meus amigos estavam todos lá. Me receberam muito felizes, levei cartas das famílias, fotos, lembranças, afinal naquela época não tinha celular. No Paraguai morei apenas dez dias, pois os amigos com quem fui morar mudaram para Foz e fui junto.

Como começou a trabalhar no Paraguai?

Meu amigo, Jamal, estava há quatro anos no Paraguai, tinha loja e me empregou. Minha intenção era trabalhar 24, 36, 48 horas para pagar o dinheiro da passagem.

Não sabia a língua, então comecei a ir com meu amigo na loja e ficava atrás do balcão, pegava um caderno e caneta e perguntava “Como se fala comer? Como se fala vender?”, ia anotando, aprendendo as palavras do comércio, não tinha vergonha de errar, por isso aprendi rápido.

No começo ganhava bem pouco, pois tinha que ajudar no aluguel e na comida, me sobrava uns US$100,00 que comparado ao salário do Líbano era gigante. Depois de seis meses já estava entendendo o idioma, sabia as palavras para vender e já tinha mandado o dinheiro para meu pai pagar a passagem. Chamei meu amigo e fiz uma proposta, ele abriria uma loja e eu tomaria conta, na hora ele relutou dizendo que nem falava direito, pedi para ele confiar em mim, ele respondeu: “Tá bom vamos tentar!”.

Você era sócio na loja?

Ainda não, era somente um gerente assalariado, após um ano a loja tinha um ótimo faturamento. Foi quando o chamei para conversar e disse: “Agora preciso de porcentagem (risos).” Ele concordou. Não lembro quanto, acho que 20%, e o ano de 1993 foi excelente para o comércio. Novamente conversamos e falei: “Agora vamos rachar 50/50… (risos)”.

Ele sempre me incentivou muito, quando abriu a loja não precisava de mim, ele praticamente abriu a loja para mim. Mas lógico, não ganhei de mão beijada, trabalhava muito em torno de 12 horas por dia. O Jamal foi e é muito importante em minha vida.

Depois de quanto tempo você voltou ao Líbano?

Depois de 10 anos! Somente em 2001 com uma saudade imensa. Mas mandava 400, 500 dólares todo o mês. Aqui podia parecer pouco, mas lá era muito dinheiro, meu pai quando saí do Líbano ganhava uns 400 dólares. Lembro-me da primeira carta de meu pai, recebi depois de quatro meses e chorei, chorei muito, meu pai era professor sabia como usar as palavras, mexeu muito comigo. Li mais de 100 vezes.

Demorou muito porque em 1994 quando já era sócio da loja, comprei a outra parte do meu sócio. Também me casei, afinal a vida de solteiro, sozinho e inimigo da cozinha (risos), não era nada fácil. A irmã do Jamal é minha esposa.

Em 1995 tudo parou, Paraguai, Brasil o comércio havia parado e os custos mensais aumentado. Comecei a ficar desesperado. Não teve jeito, no final do ano decidi fechar a loja, estava com muitas dividas e não tinha mais como continuar, saí praticamente quebrado. Desanimei muito, estava devendo demais. O Jamal veio conversar comigo e falou: “Fique tranquilo, eu vou assumir sua dívida com os fornecedores e você me paga depois”.

Comecei tudo novamente, mas diferente, trabalhava na rua, pegava um pouco de produto com fornecedores, vendia em algumas lojas, afinal precisava sustentar minha família.

Passei a vender perfume, diferente de eletrônico, o movimento era bem menor. Trabalhei dois anos para pagar a dívida, por isso a viagem ao Líbano demorou tanto.

Em 2001 fui para o Líbano, eu e toda a família passear, afinal meus pais tinham que conhecer meus filhos. Fiquei três meses lá.

E na volta continuou no ramo de perfume?

Quando voltei o Jamal veio conversar comigo perguntando se iria continuar com perfume, eu respondi que sim, e ele falou “vamos abrir uma loja!”. Na hora respondi “não… pelo amor de Deus! Não vem com esse papo!”. O movimento estava fraco, as lojas fechando, ele falou: “tem uma loja bem grande, aluguel de US$ 800,00”. Falei: “cara se for US$ 8,00 dólares eu NÃO QUERO!!!”. Ele muito experiente, falou que quando o movimento não está bem, aí que você deve investir. Resisti até o final de 2001, depois abrimos novamente uma loja de eletrônico.

Meu irmão já tinha vindo do Líbano para trabalhar comigo, ficou cuidando do comércio de perfume e trabalha com perfume até hoje.

E a nova loja de eletrônicos deu certo?

Sim, resolvemos investir em algo novo na época que eram as câmeras digitais, começamos com a Mavica da Sony, era bem primórdio das câmeras, ela era com disquete, cada disquete cabia 12 fotos. O nome da loja era MAVICASHOP, demos sorte porque pegamos algo que ninguém tinha e logo no começo.

Como você foi parar na Venezuela?

A vontade de crescer sempre mais está dentro de cada pessoa. Em Dezembro de 2008 uns amigos da Venezuela me chamaram pra ir pra lá, falei para o Jamal “vou pra Venezuela, falaram que tá bom pra se ganhar dinheiro”.

Chegando lá, era uma loucura, a condição de vida era precária, mas tinha dinheiro e tinha trabalho. Fomos eu e o Armando estudar o mercado, e no início de 2009 abrimos empresa e começamos a trazer câmeras digitais, e durante um tempo foi bom.
Mas o governo, a moeda instável, e a política era toda centralizada em Chávez. Quando ele ficou doente e foi para Cuba, o país parou completamente.

Em 2013 a dificuldade me fez abandonar a Venezuela, era muito difícil. Mas alguns anos antes, preocupado com o que estava acontecendo, já pensava no que ia fazer, queria uma coisa diferente para trabalhar, e pensei: vou trabalhar com essência de arguile!

A ideia não surgiu do nada. Já tinha parado de fumar cigarro, mas alguns anos antes na casa de amigos, fui reapresentado ao arguile e comecei a fumar. Por que no Líbano eu não fumava, o meu pai não fumava, então o contato que tinha era quando saíamos com amigos, ou quando o pai de algum fumava.

Um dia um amigo fez um rosh de duas maçãs, experimentei e gostei muito, “que essência é essa?” perguntei, e ele me disse é Mazaya.

No outro dia comecei a pesquisar sobre a Mazaya, achei no site o e-mail e enviei falando que tinha interesse em vender a Mazaya, já pensando no mercado brasileiro. Não tive retorno, liguei no telefone que tinha no site, quem atendeu foi o Sadik o atual diretor de vendas. Falei pra ele que estava interessado em comprar e representar, já pensava em visitar minhas irmãs que moravam na Jordânia, então disse que quando fosse à Jordânia gostaria de conversar com ele pessoalmente.

Não pretendia ir tão rápido pra Jordânia, mas o destino não quis assim. Uns vinte dias depois disso meu pai estava visitando minhas irmãs na Jordânia, ficou doente e fui pra lá. Ele ficou 3 ou 4 dias na UTI e saiu super bem. Aproveitei e encontrei Sadik, isso era final de 2012. Sentamos em um café e no mesmo dia fiz o pedido, mesmo quase não conhecendo os sabores.

Depois desse susto, e já que ele e minha mãe estavam sozinhos, os trouxe para morar comigo no Brasil. Pouco tempo depois ele teve um enfisema pulmonar, ficou 111 dias na UTI e faleceu.

E como entrou no mundo do arguile?

Depois de um mês de luto retomei contato e fechamos a parceria.

O primeiro container chegou no final de 2013. Como não tinha muito conhecimento de sabores, nem de mercado brasileiro, alguns venderam muito, outros venderam pouco e uns não venderam. Descobri que o brasileiro tem um paladar muito diferente dos outros países, o público brasileiro é exigente e gosta de novidade, ele enjoa e quer experimentar coisas novas, gosta de renovação.
E assim fui conhecendo o mercado brasileiro, participando de eventos, entendendo como funcionavam os blogs, as reviews. O primeiro evento que participei foi no ABC, no bar Giramundo. Não conhecia ninguém, só o Gil (Gil Tabacaria), mas esse mundo do arguile era tolamente diferente para mim.

Sou árabe, mas não sabia muita coisa de arguile. Eu queria saber mais, tinha sede de conhecimento, me arrependo de nunca parar para conversar com os senhores de 60, 70 anos que ficavam jogando baralho, papeando e fumando, e perguntar para eles o que significava o arguile para eles. Com certeza tinha significado, fui descobrir isso depois de começar a entrar mais fundo no mundo do arguile, e quem me deu oportunidade foi o povo brasileiro.

Nos eventos quando via o pessoal com arguile, a namorada, com os amigos conversando, pensava: “será o arguile que está juntando todo mundo, trazendo essa união?”. O arguile juntava as pessoas, mas isso só percebi por que passei a trabalhar com amor, o dinheiro era consequência, eu passei a admirar a cultura.

O que acha sobre os eventos no Brasil?

Esses eventos que reúnem 500, 1000, 2000 pessoas, não existem em nenhum outro lugar do mundo. As pessoas vão para se reunir fumar arguile. Não é um show de alguém famoso, não é uma feira, não é um evento pra ganhar dinheiro é para fumar. Isso tem que ser valorizado.
O Shareef Mamoon disse uma frase que gostei muito em um evento que nós fomos a Maringá: “Eu estou me sentindo pequeno na frente desse mundo, desse povo todo”. O brasileiro está fazendo uma transformação, uma renovação no mundo do arguile. Começaram fazer arguiles modernos, de madeira, alumínio, rosqueáveis, rosh, mangueira, acessórios para arguile.
Quem entrou sem amor pelo arguile, quem entrou só pensando em dinheiro, ou tá atrás ou já saiu. Nesse ramo cada um tem que pensar financeiramente sim, por que você tem que manter sua vida, mas tem que pensar no amor, na cultura por trás. Hoje não existe nenhum povo que ame o arguile como o brasileiro.

Como você vê os fabricantes e lojistas de Arguile?

Entendo que tenho um compromisso aqui no Brasil para preservar esta cultura, tentar cada vez mais unir os fabricantes e comerciantes brasileiros. Acho que não podemos ter inimigos entre os fabricantes e lojistas, temos que nos unir pela cultura. O mercado de arguile no Brasil está começando a crescer e o mundo inteiro está de olho, pois o brasileiro é muito criativo.
Hoje o que precisamos no ramo, na sociedade e no mundo, é união. Espero que essa confraternização, essa união que temos no arguile ultrapasse o hobby do arguile e se estenda para a família e para o mundo.

O senhor representa da Mazaya aqui no Brasil, qual o olhar dos diretores para este mercado?

Eles sempre tiveram muito interesse pelo Brasil, é um mercado que tem crescido muito. O diretor geral, o Faris, sempre abriu as portas para o Brasil e tinha interesse em saber qual o gosto do brasileiro para adequar os produtos da Mazaya. O olhar deles é tão positivo, que eles abriram no ano passado a fábrica para alguns brasileiros que levamos para ajudar no processo de escolha de produtos específicos para o Brasil. Então podem esperar muitas novidades, pois tem mais por vir.

Como o senhor quer ser lembrado daqui a alguns anos quando alguém citar seu nome no ramo do arguile?

Quero que se lembre de um árabe que veio para o Brasil e graças ao brasileiro conheceu o arguile e se apaixonou, tanto pelo Brasil quanto pelo arguile. Quero ser lembrado como alguém que conseguiu alguma união neste ramo.

Por: Redação HBE